Feira, o melhor lugar pra comprar comida.

Talvez algumas pessoas imaginem que passo horas na cozinha preparando cada refeição. Isso às vezes é verdade, mas não é a regra aqui em casa. No dia a dia, principalmente agora que estou mais ocupada do que nunca, tento passar o mínimo de tempo possível na cozinha. Preparo o almoço em menos de meia hora (às vezes 5 minutos, se estiver bem preparada) e gasto entre 10 minutos e 1 hora pra fazer o jantar durante a semana. Em 10 minutos esquento um resto de sopa e preparo uma salada crua, em 1 hora cozinho um prato completo, como um ensopado ou um gratinado (que será meu jantar durante vários dias).

Na hora de ganhar tempo, o mais importante é nunca precisar começar do zero. Com leguminosas no congelador, uma porção de cereal cozido e um resto de sopa na geladeira, mais um ou dois legumes, eu posso preparar refeições em minutos. Pode parecer complicado ou trabalhoso, mas é exatamente o oposto. Você só precisa incluir alguns gestos na sua rotina semanal pra estar sempre preparada e esses minutos gastos planejando farão uma enorme diferença durante a semana.

Tajine congelado indo pro fogo.

Mês passado passei duas semanas anotando tudo o que comia e a maneira como planejo as refeições da semana pra dar uma mãozinha aos leitores que se sentem meio perdidos na cozinha. Acabei escrevendo tanta coisa que terei que publicar em partes. Vou explicar minha técnica pra montar cardápios e mostrar o que comi naquelas duas semanas pra vocês verem como aplico isso na prática. Mas nesse primeiro post gostaria de dividir com vocês as dicas que considero mais importantes pra cozinhar de maneira prática, rápida e econômica.

1-Mantenha sempre um pequeno estoque dos produtos que formam a base do tipo de comida que você gosta de preparar. No meu caso isso significa: feijão ou grão de bico, cereais como quinoa e aveia, macarrão de ótima qualidade (pra Anne), cebola, alho, pimenta do reino, um bom azeite, tahina, limão e uma erva fresca.  Nunca deixo faltar esses ingredientes em casa e com eles entre as mãos só preciso de alguns legumes (frescos ou congelados) pra preparar várias refeições diferentes.

2-Cozinhe uma grande quantidade de feijão ou grão de bico pelo menos uma vez por semana e congele porções de uma, duas ou três xícaras (ou mais) dependendo do tamanho da sua família. Eu geralmente cozinho 500 g por vez, guardo 1/3 na geladeira pra comer no mesmo dia e congelo o resto pra usar em sopas, ensopados, saladas, amassados… Como esse hábito faz parte da minha rotina, sempre tem dois ou mais tipos de leguminosas no congelador, o que pra mim significa que metade do almoço ou jantar já está pronto.

No meu congelador (da esquerda pra direita, começando pela prateleira de cima): milho, trigo em grãos, meu pão de centeio e sementes, grão de bico, feijão vermelho, (na prateleira de baixo) pãozinho recheado com espinafre (presente da vizinha, dentro do saco branco), linhaça moída (no pote branco), salsão, coentro e brócolis. No fundo ainda tinha mais feijão, mais grão de bico, tofu e otras cositas más.

3-Faço a mesma coisa, mas com menos frequência, com grãos que precisam de muito tempo pra cozinhar, como arroz integral e trigo inteiro. Congelo porções de uma xícara e uso em sopas (não precisa descongelar antes).

4-Quando preparo quinoa e lentilha, sempre cozinho o dobro da quantidade que vou precisar e guardo o resto na geladeira pro dia seguinte. Assim economizo tempo na hora de preparar as próximas refeições.

5-Se encontrar um legume que gosto em promoção, compro dois ou três quilos e assim que chego em casa lavo uma parte, corto em pedaços pequenos e congelo. Uso esses legumes em sopas e ensopados.

6-Faço a mesma coisa com legumes que são vendidos em quantidades grandes, mas que uso pouco ou só de vez em quando. Salsão, por exemplo, só é vendido aqui em buquês enormes. Como só uso salsão em sopas e, mais raramente, em saladas, ele sempre acabava se estragando na geladeira. Agora lavo e corto em pedaços miúdos quase todo o salsão no dia que compro, congelo em um saco grande e retiro porções pequenas sempre que preciso. Também congelo coentro, que é difícil de achar por aqui (uso ervas congeladas somente em sopas e feijão).

7-Pra não esquecer seus legumes, grãos e feijões no fundo do congelador, anote tudo que você for congelando, com a quantidade e a data, em um papel e deixe na porta da geladeira. Ex: 1 xícara de grão de bico X 2, 28/01. Além de evitar hibernações longas demais, lembrar do que tem dentro do congelador pode servir de inspiração naqueles momentos em que não sabemos o que preparar.

Meu congelador, alguns dias depois: banana, coentro, trigo em grãos, feijão branco, sopa de ervilha seca, grão de bico, feijão vermelho, (na prateleira de baixo) linhaça moída e inteira, bolinhos de banana, aveia e passas, sopa de feijão, couve e milho, couve-flor e meu pão. O que tem lá por trás só Alá sabe!

8-Uma palavrinha sobre congelamento doméstico. Comida congelada em casa deve ser consumida em no máximo três meses e lembre-se de nunca recongelar algo. Se eu  usar feijão congelado pra fazer uma sopa, por exemplo, nunca congelo a sopa.

9-Ser flexível e bom de garfo ajuda muito. Eu não me incomodo de comer a mesma coisa dois dias seguidos, de repetir os legumes ou frutas (porque são os únicos que estão disponíveis no momento), nem de comer resto de sopa no almoço. O importante pra mim é ter sempre comida nutritiva e gostosa na mesa e reduzir o tempo que passo na cozinha durante a semana.

10-Expanda seu conceito de “mistura”. Pra mim mistura é leguminosa e a forma pode variar bastante, contanto que seja algo delicioso.  Considero como mistura: ensopado de feijão, amassado de grão de bico, hummus, creme de feijão branco, bolinho de lentilha, salada de lentilha etc. Fica mais fácil compor uma refeição vegetal equilibrada e rápida quando quebramos a velha fórmula “feijão, arroz e mistura”.

11-Falando nisso, evite a tendência comum entre vegs de usar substitutos da carne pra preencher o espaço reservado à mistura no prato. Abaixo a proteína de soja! Feijão e arroz já formam uma proteína completa, ninguém precisa de “carne vegetal”. Depois é só usar a criatividade e preparar o feijão de maneiras diferentes e saborosas (veja dica anterior).

Faço pão pra semana inteira, fatio e congelo.

12-Recicle sua comida. O resto do trigo de ontem pode entrar na salada de hoje, o hummus que você passou no pão de manhã pode virar mistura no almoço, o que sobrou dos legumes assados do jantar pode se transformar em sopa no dia seguinte, o tofu do almoço pode virar recheio do sanduíche do jantar…

13-Pra economizar dinheiro, e ter sempre vegetais fresquinhos, faça suas compras na feira. Geralmente tem um dia onde os produtos são mais baratos, então vá à feira nesse dia (aqui é na quinta, pois não tem feira na sexta e os feirantes querem vender tudo antes de voltar pra casa). Compre uma quantidade grande do que estiver em promoção e congele uma parte (veja dica número 5). Mas só vale comprar vegetais que possam ser congelados e que você goste. Não adianta voltar pra casa com 5kg de beterraba se você não gosta de beterraba, pois o legume vai estragar na geladeira e você não terá feito economia nenhuma.

14-Compre vegetais da época. É mais ecológico, mais barato e tem sempre um sabor melhor. Eu não me incomodo de maneira alguma em comer mexerica e folhas (couve, espinafre) todos os dias durante o inverno, por exemplo. Também não me importo em passar meses sem comer um certo tipo de vegetal porque ele está fora de época. No começo foi difícil, mas hoje não consigo aceitar a ideia de comprar um vegetal cultivado em estufa, que além de mais caro é insípido. Identificar os vegetais de época é fácil, basta procurar os mais abundantes e baratos na feira (no supermercado, que tem tudo o ano todo, fica mais difícil saber).

Almoço feito de restos reciclados (menos a salada).

15-Restos são os melhores amigos de quem não tem muito tempo pra cozinhar. Faça o dobro de tudo que preparar (o tempo gasto fazendo uma sopa pra duas ou quatro pessoas é praticamente o mesmo) e você terá sempre comida pronta na geladeira (ou congelador). Essa dica não é válida pra saladas, claro.

Organização é uma questão de hábito. Pode parecer difícil no início, mas depois que esses gestos entrarem na sua rotina, você passa a fazê-los sem pensar.

Espero que todos estejam se divertindo e tendo um ótimo carnaval. Felizmente pra mim, por aqui não tem folia e com somente uma moradora na casa, as coisas estão mais tranquilas do que nunca.

O inverno desse ano está bem frio e como não tenho aquecedor (tenho um a gás, que está sem gás no momento, mas de todo jeito prefiro não usá-lo) passei os últimos dias com uma bolsa de água quente nos pés e uma caneca de chá nas mãos. Se pudesse, teria me refugiado embaixo das cobertas o tempo todo, mas tive que sair várias vezes sob a chuva grossa que não parou de cair durante toda a semana. No sábado saí pra comprar comida sob uma chuva de granizo e à noite comecei a me sentir meio mole, como se estivesse incubando um vírus malvado que iria explodir no dia seguinte. Ainda bem que tinha trazido pra casa as últimas romãs da feira.

Romã aqui é muito popular e durante boa parte do ano é possível encontrar suco fresco de romã nas esquinas da cidade. Tomei suco de romã pela primeira vez aqui, mas só recentemente comecei a prepará-lo em casa.  Nas lanchonetes e cafés eles usam um espremedor manual de ferro  estilo alavanca e eu achava que só com um desses seria possível extrair o suco dessa fruta. Mas depois de tentar com meu espremedor de laranja de plástico vi que também dava certo.

Sei que alguns posts atrás falei mal de sucos de frutas e disse que era sempre melhor consumir a fruta inteira. Continuo achando que é verdade, mas a romã tem um poder medicinal tão grande e é tão rica em antioxidantes que acredito que compensa. E de todo jeito, nunca consegui engolir as sementinhas da romã (mastigo bem, extraio o suco na boca e jogo resto fora), então nesse caso não faz nenhuma diferença.

A receita de hoje é na verdade uma dica. Quando começar a sentir que vai gripar, ou sempre que quiser dar uma forcinha ao seu sistema imunológico, corte uma romã madura ao meio e use um espremedor de laranja pra extrair o suco, exatamente como você faria com uma laranja. Você vai precisar fazer um pouco mais de força e talvez estourar com os dedos alguma sementinha que tenha ficado inteira (pressione as sementes contra o espremedor), mas sua saúde vai agradecer. Talvez tenha sido a combinação de suco fresco de romã, sopa de feijão e uma boa noite de sono, mas o fato é que domingo acordei novinha em folha.

Outra dica: se quiser retirar as sementes da romã pra comer ou utilizar em alguma receita, aprendi uma técnica infalível com Nigella Lawson. É só cortar a romã ao meio e bater no lado da casca com uma colher de pau.

Antes de ir embora, uma imagem do meu “carnaval” aqui. Mais tranquilo impossível!

Salada de funcho, toranja e tâmara

Desde que me mudei pra cá vi coisas extraordinárias acontecerem. Poderia escrever um livro (um dia, quem sabe), mas me contento, por hora, de escrever um post.

Alguns dias atrás minha grande amiga Johanna, que mora em Tel Aviv, ligou dizendo que tinha um amigo israelense precisando da minha ajuda e que era urgente. Ela não tinha tempo pra explicar, mas ele podia contar tudo direitinho. Fiquei surpresa, mas disse: “Pois não, pode falar pra ele me telefonar”. E fiquei matutando sobre esse pedido estranho. Por que cargas d’água um rapaz que não me conhecia precisava de minha ajuda? Conhecendo os amigos ativistas de Johanna, torci pra que não fosse algo ilegal, mesmo sabendo que meu espírito subversivo se deixaria convencer de qualquer coisa. (Só confessei isso porque minha mãe não lê o blog e se lesse não entenderia, pois ela não sabe o que significa “subversivo”.)

Poucos minutos depois o telefone tocou e essa foi a história que o amigo de Johanna me contou. Esse israelense judeu de Jerusalém, que chamarei de O., tinha um namorado palestino muçulmano, que chamarei de F.. Os dois se conheceram pela internet e namoram há algum tempo. Vou abrir um pequeno parêntese pra fazer algo que jurei nunca fazer aqui no blog: falar do conflito israelo-palestino.  Misturar comida com política pode dar indigestão, mas dessa vez não posso evitar. Os territórios palestinos estão hoje divididos entre a Cisjordânia, a Faixa de Gaza e Jerusalém Oriental, todos sob ocupação e controle militar total israelense desde 1967. Um palestino de Belém (Cisjordânia) não pode entrar em Jerusalém Oriental, a menos que tenha uma autorização do governo israelense e é proibido de entrar em Israel. Esse mesmo governo proíbe os civis israelenses de entrar nos territórios palestinos, ou seja,  nem O. pode visitar o namorado na Palestina, nem F. pode visitar O. em Jerusalém. O. entrou várias vezes (de maneira ilegal) na Palestina e sempre ficava hospedado na casa de F. A família de F. não tem nada contra os israelenses (como disse mais acima, é o próprio governo israelense que proíbe seus cidadãos de entrarem na Palestina, não os palestinos) e sempre receberam O. de braços abertos. Isso, claro, porque não sabem que ele é o namorado de F., eles acreditam que ele é só mais um amigo. A sociedade palestina ainda é extremamente conservadora e homossexualismo é um tema tabu por aqui. Já a família israelense de O. aceita o fato dele ser gay sem problemas, mas não sabem que O. tem um namorado palestino. Ser homossexual é algo tolerável, mas namorar o “inimigo” seria considerado uma alta traição na família dele. No dia anterior, O. tinha pedido o carro dos pais emprestado, entrado (ilegalmente) na Cisjordânia e levado o namorado palestino pra Jerusalém (ilegalmente). Os dois acabaram sendo presos na mesma noite e por um milagre F. foi solto depois de apenas algumas horas de interrogatório. Palestinos que entram ilegalmente em Jerusalém ou em Israel podem ficar vários meses na cadeia israelense. Depois do ocorrido os pais de F. ficaram com medo de hospedar O., pois a poucos metros da casa tem duas torres militares israelenses e os soldados estão sempre rondando as terras da família. Se eles suspeitarem que tem um israelense na casa, toda a família pode ser acusada de ter “sequestrado” um israelense e será presa (não, infelizmente não é piada) e O. terá que pagar uma multa por estar em um território proibido. Depois que F. foi detido em Jerusalém, os soldados aparecem com mais frequência e a família teme pela segurança de seus membros. Por isso pediram que O. não viesse mais ali, para o seu próprio bem e para o bem de toda a família. Então naquele momento eles estavam na rua, precisando conversar pra resolver essa situação e querendo passar um pouco de tempo juntos, já que talvez essa fosse a última vez que eles se encontrariam. Entendi então porque O. precisava da minha ajuda e fiz o que qualquer pessoa com um pouco de sentimento e um muito de irresponsabilidade teria feito no meu lugar: convidei os dois pra passar a noite aqui em casa.

Eles chegaram por volta das sete da noite e eu ofereci chá, jantar, orelhas, conselhos e o colchão de hóspedes. Eles me contaram como se conheceram, o pesadelo da noite anterior, passada em uma delegacia de Jerusalém e como se sentiam perdidos. O., o israelense, faz teatro por paixão e faxinas pra pagar o aluguel. F., o palestino, é professor de Inglês em uma escola secundária, mas fez questão de dizer que O. ganha mais fazendo faxina do que ele ensinando.  Eles são dois dos rapazes mais doces que já tive o prazer de conhecer. Depois do jantar deixei os dois deitados (espremidos seria o termo adequado) no meu colchãozinho que já é pequeno pra uma pessoa sozinha, imagine então pra dois rapagões de mais de 1.80. Antes de subir pro meu quarto passei pela sala pra dar boa noite e vi os dois abraçadinhos naquele colchão estreito, conversando baixinho e sorrindo. Deitada na minha cama pensei nos riscos que nós três estávamos correndo (que não vou citar aqui porque imagina se minha mãe decide ler o blog!), mas o que predominava era a esperança que crescia no meu peito. Apesar de todos os check points, do muro, da propaganda e estratégias desenvolvidas pra que esses dois povos nunca se encontrem, pois é mais fácil justificar a necessidade de uma ocupação se o povo que ocupa não conhece o povo ocupado, apesar de todos esses obstáculos eles conseguem se encontrar. E se apaixonar. Israel e Palestina estavam se amando na minha sala. Ainda era possível ter esperanças.

Eles foram embora na manhã seguinte, cada um pra um lado diferente da fronteira. Depois de agradeceram a hospitalidade pela décima vez eu respondi “Imagina! Eu tenho que ajudar o meu povo”. Mas sei que mesmo se eu não fizesse parte desse “povo” eu teria ajudado os rapazes da mesma maneira. Só pela subversão.

Salada de funcho, toranja e tâmaras

Detesto publicar receitas que só pouca gente pode fazer, mas essa foi a salada que servi durante o jantar quando O. e F. estavam aqui e desde então ela me faz pensar neles. Funcho, também conhecido com erva-doce,  é um vegetal engraçado e com gosto de anis (veja foto acima). Toranja é uma laranja maior e mais amarga. Nessa receita ela pode ser substituída por laranja, mas gosto do amargor da toranja junto com a doçura das tâmaras. Essa receita também serve pra explicar como cortar gomos de laranja/toranja sem pele e sem sementes pra usar em saladas (ou tortas), então entre uma história, uma técnica e uma receita, todo mundo vai achar algo interessante nesse post.

1 funcho médio (erva-doce)
1 toranja (ou 2 laranjas pequenas)
1 tâmara
Azeite, sal e pimenta do reino

Corte o funcho em fatias finíssimas, depois pique bem miudinho. Corte a toranja, ou as laranjas, como mostrado nas fotos abaixo e misture com o funcho picado. Esprema a “carcaça” da toranja (com a mão) sobre a salada. Corte a tâmara em pedaços bem pequenos e junte à mistura funcho/toranja. Regue com um fio de azeite, tempere com uma pitada generosa de sal e pimenta do reino a gosto. Se quiser, decore com as folhinhas verdes do funcho. Rende 2-3 porções.

Corte uma fatia do topo e da base da fruta, expondo a polpa.

Retire a casca das laterais da fruta, seguindo seu contorno arredondado (você vai precisar de uma faca afiadíssima).

Toranja pelada.

Corte fatias da fruta, liberando os gomos. A pele branca funciona como paredes, separando os gomos, e a faca deve passar o mais próximo possível delas.

Gomos sem pele e sem sementes (retire-as com os dedos) e a "carcaça" da fruta do lado.

Espinafre com creme

Hoje eu gostaria de fazer alguns agradecimentos, anunciar mais uma novidade e dividir uma receita muito especial com vocês. Queridos leitores, muito obrigada pelo entusiasmo que vocês manifestaram no lançamento do Guia do Herbívoro Feliz e pelo apoio daqueles que compraram o livro. Vocês são ótimos! Ainda não atingi o meu objetivo (mas não perco as esperanças), por isso o Guia continua à venda. Criei até uma página especialmente pra ele (olhem no cabeçalho do blog) e toda divulgação é bem vinda. Passemos então ao anúncio.

Depois de muito me tentar, ao ponto que comecei a desconfiar que ela trabalhava pro Zuckerberg, Cibele conseguiu me convencer a entrar no Facebook. Lembram dessa leitora que foi parar em Natal pra me conhecer e acabou ficando amiga da família inteira? Pois além de simpática, inteligente e linda, ela tem muita lábia. Essa moça, como diz minha mama, consegue levar Frei Damião pro cabaré. Pois debutei na tal da mídia social e queria chamar aqueles que já estão por lá pra me fazer uma visita. Vocês encontram o Papacapim aqui. Enfim, a receita.

Muitas luas atrás eu publiquei uma série de posts respondendo àquela pergunta que os veganos não aguentam mais ouvir (vejam aqui, aqui e aqui). Mês passado uma leitora (oi, Joana!) me pediu pra publicar a receita do espinafre com molho de queijo que aparece em várias fotos. Essa receita faz parte do meu repertório há bastante tempo e é um dos pratos preferidos da casa Papacapim. Ela não apareceu aqui antes porque prefiro publicar receitas que sejam acessíveis a todos (ou pelo menos à maioria dos meus leitores) e a base do molho de queijo é o (bendito pra alguns, maldito pra outros) levedo de cerveja maltado, que ainda não está disponível no Brasil. Esse produto, que não tem nada a ver com o levedo de cerveja comum vendido em pó ou comprimidos por aí, tem um sabor que lembra queijos fortes, como parmesão. Dizer que ele tem gosto de queijo é exagero, mas esse ingrediente deixa um gostinho delicioso capaz de consolar aqueles que não querem ou não podem comer queijo. Principalmente se combinado com castanhas de caju, como no meu famoso molho de queijo vegano. Mas nem tudo está perdido, amigos. Eu testei uma versão da receita sem levedo maltado e com um tiquinho de levedo normal (o vendido aí no Brasil) e tive uma agradável surpresa: a receita continua deliciosa. Aleluia, shalom, shalom, meu bom Alá*! Agora sim posso tornar pública essa iguaria.

Espinafre com creme e tofu mexido (brunch de domingo aqui em casa)

Essa é uma daquelas receitas que se você não contar que é totalmente vegetal ninguém adivinha. Um amigo australiano comeu aqui em casa outro dia e perguntou (já pronto pra me  denunciar pra polícia vegana): “Mas por que esse creme de leite você come?”. Porque não é creme de leite, cara pálida! Pode servir esse prato pra família e amigos, pois ele é onívoro friendly. Garanto.

Mas antes de revelar essa receita maravilhosa, uma palavrinha sobre castanha de caju. Sempre que converso com onívoros e digo que como castanha de caju regularmente eles gritam: “Castanhas? Muito gorduroso/calórico pra mim!” Se você faz parte do grupo de pessoas que temem as oleaginosas, eu fiz umas continhas especialmente pra você. Minha receita usa 100g de castanhas de caju, que tem 570 calorias. Misturo as castanhas com uma xícara e meia de água e obtenho 450g de creme (sim, eu pesei). Lembre-se desses números: 450g de creme de castanhas tem 570 calorias(água não tem calorias, logo o valor não muda). Agora imagine que eu queira usar a mesma quantidade de creme de leite de Mimosa. 450g de creme de leite tem 1128 calorias (uma lata de 300g tem 752 calorias, eu pesquisei no site do mais famoso fabricante dessas latinhas), ou seja, o dobro! E as vantagens não param por aí. Os 450g de creme de castanha usados na receita têm 46g de gordura, das quais 7,7g saturadas. A mesma quantidade de creme de leite tem 87g de gordura, das quais 56g saturadas. Meu creme de castanhas tem exatamente metade das calorias do creme de leite de vaca, metade da gordura, somente 13% da gordura saturada e ZERO colesterol (segundo a única fonte que encontrei, 450g de creme de leite tem 385mg de colesterol). Se você ainda não sabe, não existe colesterol em produtos de origem vegetal. E ainda tem mais! O creme de castanhas tem 18g de proteínas, enquanto o creme de leite não tem quase nada (creme é quase só gordura e gordura é um dos únicos alimentos que não tem proteína).  Espero ter te convencido da inocência das pobres castanhas.  Como o sabor é praticamente idêntico ao creme de leite, meu creme de castanha também é uma boa ideia pros onívoros que procuram uma alimentação mais saudável e leve.

*Eu estava escutando Zeca Baleiro enquanto escrevia esse texto.

Espinafre com creme

Esse espinafre acompanha maravilhosamente bem meu tofu mexido (é o prato oficial dos brunchs de domingo na minha casa) e também é um ótimo molho pra macarrão (nesse caso gosto de juntar uns pedacinhos de tomate, como na foto abaixo). Mas suas utilizações não devem parar por aí, use a sua imaginação. O creme aqui é uma versão mais leve da receita que publiquei no Guia do Herbívoro Feliz e é a que uso com mais frequência. Se as calorias das castanhas ainda te assustam, aqui vai mais uma informação. Como a receita faz creme suficiente pra pelo menos 3 gulosos, sobra apenas 190 calorias por porção.

Update: Jesus! Maria! José! Esqueci de colocar um ingrediente importantíssimo! É preciso 1/2cc de amido de milho pro creme ficar na consistência certa. Já corrigi a receita e se alguém testou esse prato antes de ver a correção, mil desculpas!

250g de espinafre (aproximadamente 7x)
1 cebola pequena, cortada em fatias finas
2 dentes de alho, ralados
1/2 cs de azeite
1cc de shoyo
Pimenta do reino a gosto
Para o creme
3/4x (100g) de castanha de caju natural (sem sal), de molho por 6 horas
1 1/2x de água
1/4cc de sal + 1/2cc de amido de milho
1cc de levedo de cerveja (opcional)
Suco de 1/2 limão pequeno

Escorra as castanhas e bata no liquidificador com os outros ingredientes do creme. Seja paciente e deixe o motor funcionar durante alguns minutos, ou até as castanhas se desfazerem (esfregue um pouco do creme entre os dedos pra testar). Reserve. Lave o espinafre, escorra bem e pique grosseiramente. Reserve. Aqueça o azeite em uma panela média e doure a cebola. Junte o alho e refogue mais um minuto. Acrescente metade do espinafre picado, mexa e deixe cozinhar tampado por 30 segundos. Despeje a outra metade do espinafre na panela, tampe e espere mais 30 segundos. Quando todo o espinafre tiver murchado (cuidado pra não cozinhar demais) tempere com o shoyo e mexa bem. Junte o creme e deixe cozinhar em fogo baixo, mexendo frequentemente, até engrossar (2-3 minutos). Prove, corrija o sal, se necessário, e tempere com pimenta do reino a gosto. Sirva imediatamente. Rende 4 porções como acompanhamento ou molho suficiente pra 3 porções de macarrão.

Sopa de feijão, couve e milho

Eu poderia tomar sopa todos os dias sem nunca reclamar. Na verdade isso até me deixaria bem feliz. Mas a outra moradora da casa não divide minha empolgação com sopas. Ela gosta, sempre limpa o prato, mas nunca proclamou “Que vontade de tomar sopa hoje!”. Se tiver, ela toma, mas se puder escolher, ela escolhe outra coisa. Pra mim não tem criação culinária mais perfeita do que sopa. Ela é generosa e acolhe os mais diferentes tipos de verduras, leguminosas, cereais e ervas. Ela é democrática e aceita tanto os ingredientes mais humildes quanto os mais requintados.  Ela é econômica e transforma alguns punhados de alimentos em jantar pra várias pessoas. Ela não faz bagunça na cozinha, você só precisa de uma faca, uma tabua de legumes e uma panela. Ela recicla os restos. Ela oferece muitos nutrientes e poucas calorias (as minhas sopas, pelo menos). Ela aquece o corpo por dentro e reconforta. Não consigo entender gente que não gosta de sopa.

Como a senhora papacapim está atualmente em Gaza, onde vai passar um mês inteiro trabalhando, estou aproveitando que sou a única moradora da casa pra curtir alguns prazeres solitários. Não, não é o que você está pensando. Tento espantar a solidão fazendo coisinhas que agradam mais a mim do que a ela. Rever Dirty Dancing e o Rei Leão. Comer espinafre três vezes por dia. Tomar sopa todas as noites. Eu não sou muito difícil de agradar…

Sopas de feijão são minhas preferidas e posso preparar inúmeras versões.  Sempre começo a construir a receita a partir do feijão que tiver na cozinha. Em seguida abro a geladeira à procura dos vegetais disponíveis e escolho os que combinarem melhor com o tipo de feijão (quando a geladeira está quase vazia sou bem menos seletiva). Essa é minha base. Depois é só juntar um cereal (arroz, trigo, cevada, milho, pão, macarrão…), selecionar um ou dois temperos que se harmonizem com o resto e pronto. A sopa está pronta. Gosto de sempre finalizar minhas sopas de feijão com coentro ou salsinha fresca e uma dose generosa de suco de limão. Seguindo esse esquema, é difícil fazer uma sopa ruim.


Essa é minha última receita de sopa de feijão e, devo avisar, uma das melhores de todos os tempos. Uma das mais simples, também. Sem tomate, sem caldo de legumes. É raro aparecer uma sopa aqui em casa sem esses dois ingredientes. Mas descobri que o caldo do feijão, a água em que ele foi cozinhado, é muito melhor pra preparar sopas (de feijão). Descobri também que aquela história que não se deve salgar o feijão até ele estar totalmente cozido, senão ele demora mais pra ficar pronto, não passa de uma lenda. Sal não aumenta o tempo de cozimento do feijão coisíssima nenhuma! Eu testei várias vezes. A única coisa que aumenta o tempo de cozimento de leguminosas é acidez (nada de colocar tomate, por exemplo, num feijão que está cozinhando). O sal, ao contrário, deixa a pele do feijão intacta e o interior extremamente macio, cremoso, até. Faça o teste se não acreditar em mim. Perdão, minha mãe, mas nunca mais farei feijão como a senhora me ensinou.

Queria evitar o papo nutricional porque acho chato tentar convencer alguém a comer algo somente porque é carregado de nutrientes. Ainda mais essa sopa, que de tão deliciosa vai fazer você esquecer que ela é saudável. Mas preciso dizer uma coisinha. Com feijão, couve e brócolis, essa sopa é rica ferro, cálcio e tem muita proteína (e completa, já que o feijão vem acompanhado de milho). Também suspeito que ela tenha poderes mágicos. Nas noites frias do inverno palestino, quando sento sozinha pra degustar minha sopa de feijão, a solidão parece diminuir.

Sopa de feijão vermelho, milho e couve

Cozinho 1/2kg de feijão de manhã, com sal e umas folhinhas de louro, congelo uma parte dos grãos e guardo o resto pra preparar essa sopa à noite. É importante usar feijão cozinhado no mesmo dia, pois o caldo entra na composição da sopa. Uso feijão vermelho (deve ter um nome, mas não sei qual), que é extremamente saboroso, mas na falta, feijão preto também fica bom aqui. Milho fresco é infinitamente melhor do que enlatado, mas acho que não tem milho nessa época do ano no Brasil, então vou liberar o uso das latinhas dessa vez. Mas não deixe de experimentar com milho fresco quando as espigas começarem a aparecer na feira.

3x de feijão vermelho cozido (na água com sal e umas folhinhas de louro)
1 cebola grande picada
4 dentes de alho amassados/picados
2x de brócolis picado (buquês e talos)
1x de milho cru (o equivalente a uma espiga de milho), ou congelado, ou enlatado
2 folhas grandes de couve
1,2 litro de caldo de feijão (água onde o feijão cozinhou)
1cc de cominho em pó
1cc de semente de coentro em pó
1cc de páprica (melhor se for defumada), opcional
1cc de sal de salsão (se não tiver, use sal normal)
1 folha de louro
1cs de azeite, ou outro óleo vegetal
Um punhado de coentro fresco picado
Sal e pimenta do reino a gosto
Suco de limão pra servir

Em uma panela grande, aqueça o azeite e refogue a cebola picada durante alguns minutos. Junte o alho, o comino, semente de coentro, páprica e sal de salsão e refogue mais um minuto. Junte o milho e refogue mais dois minutos. Acrescente o brócolis, o feijão cozido, o louro e o caldo de feijão. Quando começar a ferver baixe o fogo e deixe cozinhar tampado em fogo baixinho. Se o caldo evaporar demais antes dos legumes ficarem pronto, junte um pouco de água. Retire o talo das folhas de couve, enrole bem apertado (formando um charuto) e corte em tiras finas. Quando os legumes estiverem cozidos junte a couve picada e o coentro, tampe a panela e desligue o fogo. A couve vai cozinhar no calor da sopa. Espere alguns minutos, prove a sopa, corrija o sal e acrescente pimenta do reino a gosto. Na hora de servir regue a sopa com suco de limão. Rende 4 porções.