Da última vez que estive em casa você começou a se aborrecer sempre que eu falava em feminismo. Convencido de que no Brasil as mulheres têm exatamente os mesmos direitos e oportunidades que os homens, você me explicou que ser mulher não me impedia de fazer nada e não implicava nenhuma dificuldade extra no que eu quisesse ser na vida. “Pare de levar tudo pro lado do feminismo!” você dizia, extremamente irritado.

Quando a ONU publicou o último relatório sobre os dados atuais da violência contra a mulher no mundo contei pra você o que tinha passado o dia repetindo pros outros: uma em cada três mulheres foi vítima de agressão física ou sexual da parte de um homem. Você me olhou sério e disse : “Não é verdade. Eu não conheço nenhuma mulher que tenha sofrido violência de um homem. Você não conhece nenhuma. Você mesma nunca foi vítima desse tipo de violência.”

Eu não conseguia acreditar nas palavras que tinham chegado aos meus ouvidos. Além declarar, sem nunca ter se informado ou pesquisado sobre o assunto, que os dados daquela pesquisa eram falsos você afirmou, sem ter se dado o trabalho de me consultar, que eu não conhecia nenhuma vítima de violência e que nunca tinha acontecido nada do tipo comigo. Eu quis te responder imediatamente, mas estava em estado de choque. Desde então penso em te escrever essa carta.

Você disse que eu nunca sofri discriminação nem tive dificuldades em fazer nada por ser uma mulher. Então permita que eu conte apenas alguns dos muitos episódios da minha vida em que eu me senti discriminada e oprimida por ser mulher.

Quando éramos crianças nossa mãe me acordava mais cedo pra limpar a casa, mesmo durante as férias. Você tinha o direito de dormir o quanto quisesse porque, segundo ela, ‘casa onde tem mulher, homem não trabalha’.

Quando comecei a trabalhar como estagiária em um hotel, aos 17 anos, fui chamada na diretoria e criticada por trabalhar de cara lavada e tênis. O gerente disse que eu não tinha uma imagem profissional e exigiu que eu usasse maquiagem e salto alto. A partir dali fui obrigada a usar parte do meu salário minúsculo pra cultivar a ‘imagem profissional’ que ele queria, enquanto os estagiários homens tinham uma imagem profissional de cara lavada e tênis.

Cheguei na França sem falar uma palavra de Francês e passei um ano inteiro estudando duro pra dominar o idioma e poder entrar na faculdade. Na prova de língua que estrangeiros têm que fazer antes de serem aceitos na faculdade minha nota foi 94 (o máximo era 100). No meu primeiro ano na Sorbonne o diretor do meu curso me chamou pra conversar depois da aula. Ele queria me informar que eu tinha as notas mais altas do curso inteiro e disse: ‘Seu Francês é perfeito. Seu namorado francês fez um ótimo trabalho.’

Saí da Sorbonne laureada, mais isso não impediu que esse mesmo senhor , que era também meu professor, apontasse pra mim e pra outra estudante da América do Sul durante uma aula e dissesse, pra turma inteira escutar: ‘Por que vocês estão se dando o trabalho de conseguir um diploma? É muito melhor arrumar um marido francês, aí vocês não precisam se preocupar com mais nada.”

Em Londres quando eu terminava o trabalho de madrugada era obrigada a voltar pra casa de taxi, gastando o equivalente ao que eu ganhava em duas horas de trabalho com a corrida, porque voltar de ônibus, no meio da noite, tendo que percorrer sozinha os vários quilômetros que separavam a parada da minha casa era perigoso demais pra uma mulher. Meus colegas homens podiam pegar o ônibus noturno e gastar somente uma fração do que eu era obrigada a gastar.

Alguns anos atrás comecei a sentir uma dor aguda no quadril esquerdo, seguida por momentos de dormência em toda a parte esquerda do corpo. Assustada, procurei um médico. Depois de me escutar descrever os sintomas ele declarou com um sorriso cínico, sem ter me examinado: “Você é mulher. Isso é estresse”. Mudei de médico e um raio-X mostrou que a dor e a dormência estavam sendo causadas pelo desvio de uma vértebra, que estava pressionando um nervo.

Você também afirmou não conhecer nenhuma mulher que tenha sido vítima de agressão física ou sexual da parte de um homem. Mas você conhece, sim. Muitas. Deixe eu te contar o que aconteceu com algumas mulheres da nossa família (…)

Agora permita que eu te fale sobre as mulheres que eu conheço. Não vou contar todas as histórias que elas me contaram, só umas poucas, senão essa carta não teria fim. N foi abusada sexualmente pelo marido da irmã durante a infância. Quando ela finalmente contou pra família, eles não acreditaram. R estava saindo de uma boate com uma amiga quando três homens começaram a segui-las e a assedia-las verbalmente. Elas tentaram ignora-los, depois responderam com calma, por último gritaram pra eles irem embora. Depois de serem seguidas por um longo período, dois dos três homens começaram a espancar R e a amiga. Um dos homens derrubou R no chão e, segurando-a pelos cabelos, bateu o rosto dela contra o asfalto. Além dos ferimentos,  um dos seus dentes foi quebrado. O terceiro homem assistiu a tudo sem se mover, enquanto minha amiga pedia que ele fizesse com que os amigos parassem. N tinha 9 anos e estava chupando um pirulito na rua quando um homem adulto parou na sua frente, agarrou o pênis com a mão e disse: “Chupa aqui”. T estava andando no bairro onde mora quando um homem parou o carro atravessado no meio da rua estreita, bloqueando a sua passagem, abriu a porta do carro, colocou o pênis pra fora e começou a se masturbar. Outra amiga viveu uma situação idêntica, indo pro trabalho. Um homem a encurralou em um rua sem saída, baixou as calças e começou a se masturbar na frente dela. L foi estuprada pelo ex namorado e pelo melhor amigo dele, na mesma noite. A namorada de uma ex minha foi estuprada a poucas ruas de onde morava. M foi estuprada por vários homens ao mesmo tempo, também perto de onde morava. S. apanhou do namorado. O foi agredida e sofreu uma tentativa de estupro no trem quando não tinha nem 16 anos. Z e a namorada foram estupradas, uma na frente da outra, por um grupo de homens que punem com estupro mulheres que cometeram o “crime” de ser lésbica. Elas mudaram de cidade, mas as duas foram agredidas novamente por outro grupo de homens. Na segunda vez só Z escapou com vida.

Você disse que a condição da mulher só era difícil em um ou outro país governado pelo fundamentalismo e extremismo religioso (você citou o Afeganistão).  As agressões que estou contando nessa carta aconteceram na França, Índia, Bélgica, Palestina, Inglaterra, Polônia, Hungria, Alemanha, Uganda, Brasil. Como aquele relatório da ONU mostrou, violência contra a mulher existe no mundo inteiro.

Como praticamente toda mulher, eu também sofri agressões. Teve todas as vezes em que um homem colocou a mão na minha coxa ou pegou na minha bunda em um ônibus ou van e, apesar dos meus protestos, os outros passageiros fingiram que não escutavam nada.

Ou quando paguei por uma massagem em um spa e o massagista deixou os dedos “escorregarem” pra dentro da minha calcinha, até que na terceira vez eu me levantei e saí correndo.

Um dia, aos 19 anos, cheguei no trabalho com uma calça colada no corpo, o que não era costume meu. Meu chefe se aproximou e disse: “Você tá muito gostosa hoje. Tá merecendo ser estuprada.”

Alguns anos atrás eu estava voltando pra casa com Anne à noite quando um rapaz começou a nos seguir na nossa rua, que estava deserta. Ele se aproximou e pegou na bunda de Anne, que se virou bruscamente, empurrou o rapaz e começou a gritar com ele. Ele tirou uma faca do bolso e levantou o braço armado pra Anne. Instintivamente coloquei meu corpo na frente dela. Ele me agarrou pelo pescoço e me empurrou contra o muro, me imobilizando, uma mão na garganta me estrangulando e a outra segurando a faca apontada pro meu rosto. Anne deu um empurrão nele, fazendo com que ele me liberasse, e saímos correndo. Mas ele correu atrás de nós. Avistamos três homens caminhando na nossa direção e gritamos por socorro. Um deles, vizinho nosso, teve tempo de ver o rosto do agressor e nos disse que não devíamos nos preocupar porque ele conhecia o rapaz e ele era inofensivo. Fomos à polícia prestar queixa e explicamos que um dos nossos vizinhos conhecia o agressor. Quando os policiais foram à casa dele ele falou que nunca tinha dito que conhecia o rapaz, que era tudo mentira nossa. No dia seguinte contei pra um conhecido meu o que tinha acontecido e ele perguntou: “Que horas foi isso?” Respondi que tinha sido às 22h. Então ele disse: “Normal, né? Quem mandou duas mulheres andarem sozinhas à noite?”

 Uma tarde eu estava caminhando de mãos dadas com a minha namorada em uma parte movimentada da cidade quando um homem veio na nossa direção, apontou pra nossas mãos e gritou pra mim: “Que porra é essa? Eu vou te foder aqui mesmo pra você aprender.”

 Muitos anos atrás eu estava viajando e um grupo de rapazes locais começou a me seguir por todos os lugares da cidade. Uma noite um deles passou por mim na garupa de uma moto e deu um tapa no meu peito. Comecei a me sentir mal e decidi sair daquela cidade mais cedo. No caminho pra estação de trem peguei um rickshaw, esses transportes compostos de uma carrocinha puxada por uma bicicleta. Subi na carrocinha e equilibrei a mala no colo, mas o homem na bicicleta não avançava por causa do engarrafamento. Nesse momento os quatro rapazes que tinham me assediado durante dias cercaram a carrocinha e começaram a passar a mão no meu corpo inteiro, os quatro juntos. Eu tinha que segurar minha mala sobre os joelhos e me defender das oito mãos me apalpando ao mesmo tempo e gritei pro senhor da bicicleta me ajudar. Ele olhou pra trás por alguns segundos e não disse absolutamente nada. Foi durante o dia e muitos passantes viram a cena sem protestar, sem tentar me ajudar.

Durante essa mesma viagem visitei um vilarejo tranquilo e me hospedei na pousada de uma família muito simpática. O pai e dois filhos homens tomavam conta da pousada e um dos três sempre passava a noite lá pra não deixar os hóspedes sozinhos. Durante os dias que fiquei lá o filho caçula me seguiu por todos os lados. Insistia pra me acompanhar em todas as visitas e sempre sentava na minha mesa durante as refeições, mesmo sem eu o ter convidado. Comecei a me sentir muito desconfortável. Na véspera da minha partida todos os outros hóspedes tinham ido embora e eu fiquei sozinha com o filho mais novo na pousada. Por volta das 23h ele bateu na porta do meu quarto dizendo: “Preciso falar com você. Abra a porta!”. Respondi que não ia abrir, que era tarde e que queria dormir. Mas ele insistiu, batendo cada vez mais forte na porta, gritando cada vez mais alto que precisava falar comigo, que eu não podia ir embora, que ele estava apaixonado por mim, que eu era a mulher da vida dele, que eu não tinha o direito de abandona-lo… Fui ficando muito assustada, pois ele podia facilmente derrubar aquela porta e me agredir. Ou, pior ainda, me estuprar. Adocei meu tom de voz e disse todas as mentiras que imaginei que pudessem acalma-lo. Disse que eu voltaria. Que também queria conversar com ele, mas de manhã, pois naquele momento estava muito cansada. Que se ele fosse pro quarto dele e me deixasse descansar eu não iria embora no dia seguinte. Até que escutei ele se afastando do meu quarto. Voltei pra cama, mas o medo não me deixou dormir. Uma hora depois escutei ele voltar. Dessa vez ele não disse nada. Parou na frente do meu quarto e de repente o cheiro de gasolina passou por debaixo na porta e entrou nas minhas narinas. Ele tinha voltado com gasolina e despejou o combustível na porta de madeira. As janelas do meu quarto, no primeiro andar, tinham grades, então eu não podia pular. Abrir a porta significaria correr o risco de ser estuprada, ali naquela pousada vazia. Se a porta continuasse fechada ele ia colocar fogo no quarto e eu morreria queimada. Gritar pedindo socorro não serviria de nada, pois a pousada ficava em um local isolado. Eu ia morrer queimada e ninguém naquele momento podia me ajudar. Fiquei do lado da porta com todos os sentidos em alerta, os punhos cerrados, esperando escutar o barulho do fósforo sendo riscado. Imediatamente, pensei, eu abriria a porta, atravessaria o fogo e pularia da varanda, mesmo correndo o risco de não encontrar ninguém naquelas ruas desertas pra me ajudar. Era minha única chance de sobreviver. E assim fiquei, em pé, de pijama, todos os músculos contraídos, enquanto ele andava de um lado pro outro no corredor em frente à minha porta. Isso durou quase a noite inteira. Por volta das 4 da manhã ele foi, enfim, pro quarto dele. Troquei de roupa, fechei a mala e fiquei dentro do quarto esperando alguém chegar de manhã pra abrir a porta da pousada. Tentei sair de lá quase correndo, mas o pai insistiu pra que o filho me acompanhasse até a ferroviária e aceitei porque explicar o que tinha acontecido na noite anterior ia acabar retardando a minha partida. Tudo que eu queria era ir embora pra bem longe dali, o mais rápido possível. No caminho da ferroviária tive que escutar a pessoa que por horas tinha ameaçado me matar queimada exigindo que eu ficasse, que me casasse com ele e dizendo que se eu não voltasse em um mês ele se suicidaria.

Porém a agressão que deixou as marcas mais profundas foi a primeira de todas. Eu tinha entre 4 e 5 anos. Minha mãe gostava de visitar uma amiga e o marido dela, que moravam perto, e às vezes me levava com ela. Um dia minha mãe foi pra cozinha com a amiga e me deixou sentada na varanda com o marido dela. Quando se viu sozinho comigo ele se aproximou, colocou a mão dentro da minha calcinha, colocou os dedos dentro de mim e ficou falando obscenidades pra mim enquanto mexia os dedos. Fiquei em estado de choque, sem entender o que aquele homem tinha feito comigo e decidi fingir que não tinha acontecido. Consegui não pensar no assunto durante dez anos. Aos 15 anos comecei a ter pesadelos com ele e dessa vez não consegui mais enterrar a agressão na pilha de memórias esquecidas. Comecei a ter medo de todos os homens que se aproximavam de mim, até do meu pai e dos meus irmãos. Eu tentava disfarçar, pois não queria que a família descobrisse o que tinha acontecido. Sofri calada durante um ano. Nessa época eu peguei um ônibus lotado voltando da escola e um homem se encostou em mim por trás. Senti a ereção dele, senti ele roçando o pênis contra a minha bunda e o medo que me invadiu naquela hora me paralisou. Eu não consegui reagir, fiquei imóvel, as lágrimas rolando pelo meu rosto. No dia seguinte decidi procurar ajuda. Eu não podia continuar vivendo com medo nem podia deixar aquele medo me impedir de reagir em situações de violência e abuso. Procurei o psicólogo da escola e expliquei que estava vivendo uma fase difícil, que estava com medo de ser abusada por qualquer homem que se aproximasse de mim, mesmo os meus irmãos e que precisava de ajuda. A primeira frase que saiu da boca do psicólogo foi: “Por que você se considera tão irresistível ao ponto de achar que todos os homens vão se interessar por você?”

Consegue imaginar agora o que senti no momento em que você disse que nem eu nem nenhuma mulher que eu conhecia tínhamos sido vítimas de violência?

Se você não vê opressão nem violência contra as mulheres não é porque ela não existe, é porque a sua realidade é completamente diferente da nossa.  Você, como homem, tem privilégios que nós não temos. O privilégio de não ter o seu espaço pessoal e seu corpo constantemente invadidos. De não ouvir ameaças de estupro de desconhecidos na rua ou do seu chefe. De não viver com medo de ser estuprada, pois no Brasil uma mulher é estuprada a cada onze minutos e a possibilidade de você ser a próxima está sempre presente. Você nunca saberá como nos sentimos nesse mundo onde o simples fato de andar na rua é suficiente pra convencer os homens de que eles podem te assediar e onde a cantada pode virar agressão física num piscar de olhos. Isso tudo, invisível aos seus olhos, é a nossa realidade. Não duvide de quem sofre com violências que você nunca sofreu.

O outro motivo que te levou a acreditar que as mulheres ao seu redor nunca tinham sofrido agressões foi o fato de nenhuma delas ter contado nada pra você. Saiba que isso não significa que nada estava acontecendo. Mesmo depois de termos sido vítimas de uma agressão nos calamos, pois talvez não acreditem em nós, talvez tentem minimizar ou ignorar completamente nossa dor, talvez nos acusem de ter ‘provocado’. Por isso eu nunca tinha te contado nada. Nem a você nem ao resto da família. Por isso nenhuma mulher chegou pra você expondo as cicatrizes que ela carrega.

Pra você ter uma ideia, precisei de quinze meses pra reunir a coragem de te enviar essa carta. Durante todo esse tempo tive medo de você não acreditar em mim. Passei o último ano com um nó no estômago pensando que ao te enviar essa carta eu corria talvez o risco de perder o seu amor pra sempre. Mas aquela conversa mudou algo dentro de mim. Percebi a que ponto me calar criava a ilusão de que crimes contra mulheres não existem e que era isso que estava produzindo opiniões como a sua. Também me dei conta que meu silêncio desencorajava outras mulheres a denunciar as agressões das quais foram vítimas.

Será que depois de ler essa carta você ainda vai se irritar quando eu falar de feminismo? Me pergunto se essa sua irritação vem do fato de você imaginar que te vejo como uma pessoa ruim, um inimigo. Ou se você confunde a minha luta contra opressão e por direitos iguais com uma vontade de retirar os seus direitos. Nada disso é verdade. Pra mim você continua sendo um ótimo irmão, uma pessoa boa e generosa. Quem não é vítima não é necessariamente culpado e gostaria muito que você entendesse isso. E direitos não é um pacotinho recheado com algo material e escasso que só pode ser oferecido pra um grupo se for obrigatoriamente retirado de outro grupo. É possível ter justiça e direitos iguais pra todos.

Se essa carta te tocou de alguma maneira gostaria de te fazer um pedido. Pare de contar e rir de piadas sexistas. Elas não são inofensivas, pois naturalizam a discriminação e banalizam a violência contra as mulheres. E numa sociedade onde sexismo é ‘engraçado’ e aceitável cria-se um terreno fértil pra cultivar a violência contra as mulheres. Se você escutar um amigo dizer algo sexista ou degradante pra mulheres, reaja. Não ignore. Silêncio é uma forma de cumplicidade. Diga que não concorda, explique porque isso nos prejudica e fale que não vai tolerar esse tipo de comportamento. E quando você escutar uma mulher falando das injustiças, assédio e violência que fazem parte do seu quotidiano, não duvide da palavra dela, escute. Não mande ela se calar, escute e pergunte como você pode ajudar a construir um mundo onde isso não acontecerá mais.

O nó no estômago continua aqui e ainda tenho um medo imenso de que essa carta cause uma fissura irreparável na nossa relação. Você é o homem mais importante na minha vida e perder o seu amor seria uma dor que nem consigo imaginar. Mas compreendi que tem algo ainda mais importante do que o meu medo: usar os meus recursos pra que minhas sobrinhas cresçam em um mundo onde ser mulher não será o maior fator de risco na vida delas. Pra que nenhuma mulher passe pelo que eu e minhas amigas passamos. Pra que as filhas que você terá não entre nas tristes estatísticas que citei nessa carta. E decidi acreditar que essa carta é a minha chance de te mostrar que além de não ter motivo nenhum pra se irritar, pois ninguém está tentando te prejudicar, você tem a oportunidade de me ajudar a fazer isso acontecer.

Sua irmã que te ama.

Deixei Beirute duas semanas atrás, passei uns dias em Paris e já estou confortavelmente instalada no meu novo lar (provisório, como é o costume) em Londres. Fico aqui até o início de julho, trabalhando no mesmo lugar onde trabalhei ano passado. Vim aqui só dar sinal de vida e tirar a teia de aranha do meu bloguito. Mas já que cheguei, vou aproveitar pra contar umas coisinhas miúdas que aconteceram nos últimos dias, pra distrair vocês do fato que hoje não tem receita.

Eu não sei vocês, mas sempre me questiono se namoraria uma pessoa onívora. Tive essa conversa com Anne algumas vezes e nenhuma de nós temos uma resposta pronta. Eu namorei uma pessoa onívora muitos anos atrás, logo depois de ter me tornado vegana e a experiência foi tranquilíssima. Além de nunca comer nada de origem animal na minha presença, chegando a retirar tudo que não era vegano da sua cozinha quando eu fui passar férias na casa dele, esse ex adorava a minha comida e sempre aceitava comer em restaurantes veganos quando viajávamos juntos. Nunca reclamou, nunca disse que estava sentindo falta de carne e, o que me deixava extremamente feliz, ele se deliciava com os pratos veganos que comia. Mais recentemente colori uma amizade com uma onívora e ela, além de ser uma das maiores fãs da minha comida, se interessa muito por veganismo, sempre pediu receitas veganas pra fazer em casa e respeita muito esse estilo de vida. Minhas duas experiências trocando fluidos com pessoas não veganas foram positivas porque as duas pessoas em questão nunca desrespeitaram minha escolha, nunca fizeram piadas e têm a mente e as papilas abertas. Algumas semanas atrás, pouco antes de sair de Beirute, conheci uma libanesa, que por acaso era chef, e a química foi instantânea, até o momento que ela soltou, do nada: “Nunca poderia ser vegana. Eu amo manteiga demais!” E mais tarde ainda teve a infeliz ideia de fazer piada com um brownie não-vegano que estava na mesa dizendo: “Tá parecendo gostoso demais pra ser vegano, né?” Tão desnecessário… Quando contei isso pra minha prima Flora ela disse: “Tem gente que é meio malvada quando paquera. Imaginam que ser gentil vai fazer com que a outra pessoa se desinteresse.” Não sei se essa foi a razão dos comentários desnecessários, mas se foi o caso então me desinteressei ainda mais. Flora disse que ia fazer uma camiseta com os dizeres: “Gentileza é sexy” e eu não podia concordar mais. Mas estou divagando. Continuo sem ter resposta pronta pro questionamento do início do parágrafo, então vou continuar analisando caso por caso. Mas confesso que meu coração herbívoro está achando cada vez mais difícil se relacionar com não veganas. Pessoas veganas lendo esse blog, vocês têm opinião formada sobre o assunto?

Fim de semana passado eu estava no trabalho, quietinha no meu canto, quando um dos seguranças do lugar se aproximou e começou a puxar conversa. Em menos de 20 segundos ele perguntou se eu tinha namorado. “Na verdade sou casada”, respondi. “Seu marido mora aqui também?” “Não, minha esposa mora em Berlim atualmente.” “Seu marido?” “Minha esposa.” (Ele deve ter pensado que eu estava confundindo as palavras em Inglês). “Ah. Então você é daquelas.” “Sim. Sou daquelas.” “E quem é o homem?” (achei que tinham parado de fazer essa pergunta uns 20 anos atrás) “Ninguém é o homem. As duas são mulheres” “E vocês têm filhos?” “Não.” “Vão tomar injeção de esperma pra ter filhos?” “Como? Não, não. Nada de injeção de esperma pra mim, obrigada.” “Você nunca encontra os homens?” “Não, nunca encontro os homens” (imaginei que o “encontrar” dele era no sentido bíblico) “Então você é assim desde o começo?” “Sou assim desde o começo”. Nesse ponto da conversa alguém veio busca-lo pra fazer não sei o que na entrada do mercado e foi um alívio ver essa conversa estranhíssima acabar. Contei pra minha irmã o ocorrido e ela disse: “Ai, Sandra, você tem muita paciência. Eu tinha mandando ele pastar na hora.” Mas a verdade é que a conversa foi tão surreal e me pegou tão desprevenida que fui respondendo tudo meio em choque, mas ao mesmo tempo sentindo uma certa pena da criatura fazendo as perguntas. Depois ri muito. Tadinho.

Um parente (adotivo) francês esteve aqui em casa dias atrás e durante o jantar, quando o assunto chegou em política, perguntei se ele sabia o que estava acontecendo no Brasil no momento. Ele disse que não tinha ideia, que não tinha acompanhado nada e que por favor explicasse pra ele que confusão era aquela que o assunto o interessava. Respirei fundo e comecei minha dissertação, mas mal terminei a segunda frase que ele declarou, sorrisão paternalista na cara e num tom de voz doce como se estivesse falando com uma criança: “Oooooh! Não é isso, não, imagina.” Ele não estava discordando do meu ponto de vista político, ele estava afirmando que eu não tinha entendido nadica de nada (no sentido semântico da coisa) e que ele, que 20 segundos antes tinha declarado não ter a mínima ideia do que se passava no Brasil, sabia melhor que eu. ‘Mansplaining’ (quando um homem “explica” de maneira condescendente algo que ele estima que a mulher não entendeu) total. Não é a primeira nem a segunda vez que esse senhor faz isso comigo. E claro que tive o desprazer de ver muitos, muitos outros homens fazendo a mesma coisa. Mas dessa vez fiquei de bobeira com as circunstâncias. Mesmo quando o camarada acabou de declarar não saber bulhufas de um determinado assunto, ainda assim ele se sente no direito de afirmar que sabe mais do que a mulher que acompanha de perto o dito assunto há meses.

E agora vou descer pra cozinha preparar alcachofras, pois prometi a Andrew, o senhor de 74 anos que me hospeda aqui, que faria o jantar hoje. Ele geralmente cozinha pra si, já que chego tarde do trabalho. Mas nas segundas estou de folga e aproveito pra passar um tempinho com ele ao redor da mesa. Essa receita eu aprendi com Valentina, que me hospedou em Beirute, e prometi à uma leitora que ia publica-la aqui um dia. Alguém mais interessado em ver como se prepara alcachofras?

Esse é o meu último mês em Beirute e já comecei a fazer listas do que quero fazer antes de ir embora. Três meses aqui é pouco pra penetrar nas camadas mais profundas da cidade. Tenho a impressão que até agora só consegui arranhar um pouquinho a superfície. Então decidi parar de tentar dar um sentido pra esse emaranhado de fios, culturas, contradições e desigualdades e vou passar as próximas semanas só admirando, absorvendo e gravando na memória cada momento e cada esquina. E aqui vão algumas imagens da cidade pra vocês verem um pouco do que estou vivendo. Não são fotos trabalhadas e fiz todas com o telefone (com excessão de duas fotos feitas por Anne), mas é assim que vou lembrar de Beirute.

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Sobre as fotos. 1- Pôr do sol na praia. 2- Aqui a eletricidade é cortada pelo menos três horas por dia, então aprendi a fazer tudo à luz de velas, inclusive cozinhar(foto feita por Anne). 3- Eu, conversando com clientes no restaurante onde fui “chef convidada” durante um fim de semana (foto feita por Anne). 4- No bairro Hamra. 5- Mesquita Mohammad Al-Amin. 6- As Rochas de Rauche, o mais famoso cartão postal da cidade.

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7- Bourg Hammoud, o bairro armênio. 8- Um café em Mar Mikhael, bairro onde moro. 9- Restaurante Manara. 10-Corniche, o calcadão que acompanha o mar. 11- Cicatrizes da guerra civil no bairro Basta.